Isto evidentemente não quer dizer que não existem atrocidades durante as guerras. Muito pelo contrário, os assassínios, os roubos à mão armada, os incêndios, as pilhagens e as violações parecem ser - infelizmente - a moeda corrente em todas as circunstâncias de guerra e a prática de todos os exércitos, desde a Antiguidade até às guerras do século XXI.
O que é específico da propaganda de guerra é fazer crer que estes factos só são usuais no inimigo, enquanto o nosso próprio exército está ao serviço da população, mesmo inimiga, e é amado por ela.
A criminalidade desviante torna-se o próprio símbolo apenas do exército inimigo, composto essencialmente por patifes sem escrúpulos.»
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«As palavras têm um peso: para o nosso campo fala-se de libertação do território, de deslocações de populações, de cemitérios, de informação. Quando se trata do outro campo, é necessário substituir sistematicamente estes termos por ocupação, limpeza étnica ou genocídio, valas e propaganda.
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Mas o facto é que a própria essência da guerra é a violência, para todos os beligerantes. É utópico querer que ela seja humana e moderada. Ela não pode ser humanizada. Contrariamente ao que afirma a propaganda de guerra, não existe maneira cavaleiresca de a travar.
Este princípio é essencial para obter a adesão da opinião pública. Entrou em todas as guerras do século XX, opondo ogres inimigos, que violam as mulheres e as mutilam voluntariamente, aos nossos bons soldados, que são esperados com alegria pelos civis inimigos, se apressam a protegê-los e alimentá-los, quando não a acorrer em socorro dos feridos inimigos.
Infelizmente, esta imagem edificante corresponde tão pouco às guerras recentes como às guerras do passado.
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É claro que as palavras têm um peso, e quando se fala dos nossos soldados que libertam Bagdad ou protegem Kabul, isso é infinitamente menos pesado que falar de tropas de ocupação.
As imagens de libertação foram cuidadosamente encenadas com a ajuda de material militar (para derrubar a famosa estátua diante do hotel Palestina), de figurantes (próximos de Ahmed Chalabi) e mesmo de gadgets trazidos pelos
libertadores (t-shirts, bandeiras, emblemas...).A mediatização da distribuição de alimentos pelos soldados da NATO no Afeganistão reforça junto do público ocidental a ideia de os nossos soldados lá estão para fazer a felicidade da população.
Pelo contrário, a soldadesca iraquiana teria apunhalado e espancado uma pobre rapariga americana chamada Jessica Lynch, até à sua libertação por um pelotão de rangers. Esta libertação supermediatizada, embora tenha reconfortado o moral da América, em nada correspondia à realidade. A BBC revelou que a jovem soldada, longe de ser molestada, tinha beneficiado da melhor cama do hospital e de duas transfusões de sangue e que por conseguinte a invasão do hospital de Nassiriya era apenas um show mediático.»
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«Já Voltaire dizia nos seus Contos Filosóficos: "Não há leis da guerra. O mal que ela não faz, é o temor ou o interesse que o trava."
No entanto, o sexto princípio da propaganda afirma que o inimigo -e só ele- não respeita estas leis da guerra e utiliza estratégias e armas não autorizadas.»