sábado, 18 de outubro de 2008

«05. O inimigo provoca conscientemente atrocidades»

«Os relatos das atrocidades cometidas pelo inimigo constituem um elemento essencial da propaganda de guerra.
Isto evidentemente não quer dizer que não existem atrocidades durante as guerras. Muito pelo contrário, os assassínios, os roubos à mão armada, os incêndios, as pilhagens e as violações parecem ser - infelizmente - a moeda corrente em todas as circunstâncias de guerra e a prática de todos os exércitos, desde a Antiguidade até às guerras do século XXI.
O que é específico da propaganda de guerra é fazer crer que estes factos só são usuais no inimigo, enquanto o nosso próprio exército está ao serviço da população, mesmo inimiga, e é amado por ela.
A criminalidade desviante torna-se o próprio símbolo apenas do exército inimigo, composto essencialmente por patifes sem escrúpulos.»
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«As palavras têm um peso: para o nosso campo fala-se de libertação do território, de deslocações de populações, de cemitérios, de informação. Quando se trata do outro campo, é necessário substituir sistematicamente estes termos por ocupação, limpeza étnica ou genocídio, valas e propaganda.
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Mas o facto é que a própria essência da guerra é a violência, para todos os beligerantes. É utópico querer que ela seja humana e moderada. Ela não pode ser humanizada. Contrariamente ao que afirma a propaganda de guerra, não existe maneira cavaleiresca de a travar.
Este princípio é essencial para obter a adesão da opinião pública. Entrou em todas as guerras do século XX, opondo ogres inimigos, que violam as mulheres e as mutilam voluntariamente, aos nossos bons soldados, que são esperados com alegria pelos civis inimigos, se apressam a protegê-los e alimentá-los, quando não a acorrer em socorro dos feridos inimigos.
Infelizmente, esta imagem edificante corresponde tão pouco às guerras recentes como às guerras do passado.
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É claro que as palavras têm um peso, e quando se fala dos nossos soldados que libertam Bagdad ou protegem Kabul, isso é infinitamente menos pesado que falar de tropas de ocupação.
As imagens de libertação foram cuidadosamente encenadas com a ajuda de material militar (para derrubar a famosa estátua diante do hotel Palestina), de figurantes (próximos de Ahmed Chalabi) e mesmo de gadgets trazidos pelos libertadores (t-shirts, bandeiras, emblemas...).
A mediatização da distribuição de alimentos pelos soldados da NATO no Afeganistão reforça junto do público ocidental a ideia de os nossos soldados lá estão para fazer a felicidade da população.
Pelo contrário, a soldadesca iraquiana teria apunhalado e espancado uma pobre rapariga americana chamada Jessica Lynch, até à sua libertação por um pelotão de rangers. Esta libertação supermediatizada, embora tenha reconfortado o moral da América, em nada correspondia à realidade. A BBC revelou que a jovem soldada, longe de ser molestada, tinha beneficiado da melhor cama do hospital e de duas transfusões de sangue e que por conseguinte a invasão do hospital de Nassiriya era apenas um show mediático.»
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«Já Voltaire dizia nos seus Contos Filosóficos: "Não há leis da guerra. O mal que ela não faz, é o temor ou o interesse que o trava."
No entanto, o sexto princípio da propaganda afirma que o inimigo -e só ele- não respeita estas leis da guerra e utiliza estratégias e armas não autorizadas